Por Laura Costa Machado*

Em um mundo cercado pela rapidez de informação e pela dispersão da atenção, falar sobre hábitos de leitura pode parecer ultrapassado. No entanto, a leitura continua sendo uma das práticas mais importantes para a formação crítica, cognitiva e social dos indivíduos. Ainda assim, transformar a leitura em um hábito regular e estabelecer metas concretas permanece um desafio para grande parte da população. Como aponta o estudo “Retratos da Leitura no Brasil 2024”, realizado pelo Instituto Pró-Livro (IPL, 2024 apud ADUFC, 2025), cerca de 47% dos brasileiros se declaram leitores, mas a média de livros lidos por ano ainda é baixa e marcada por desigualdades de acesso de interesse. Além disso, o estudo evidencia que muitos leitores têm dificuldade em manter a constância da prática, o que reforça que o desafio não está apenas no acesso ao livro, mas na construção do hábito ao longo do tempo.
A leitura vai muito além da simples decodificação de palavras, visto que está diretamente relacionada ao desenvolvimento de habilidades cognitivas complexas, como interpretação, análise e pensamento crítico. Como apontam estudos na área, a prática regular da leitura contribui para a formação de sujeitos mais autônomos e capazes de compreender e intervir na realidade em que vivem. Além disso, a leitura frequente está associada a benefícios para a saúde mental, como redução do estresse, melhoria da concentração e estímulo à criatividade (PUCRS, 2024). O contato contínuo com a leitura amplia o repertório cultural, contribui para o desenvolvimento da escrita e fortalece a capacidade argumentativa, competências essenciais em diferentes contextos sociais e acadêmicos (Fregonez, 2002). Nesse sentido, ler não é apenas um ato individual, mas também um exercício de cidadania.
Apesar disso, a construção do hábito de leitura colide, em muitos casos, com a rotina acelerada e com a concorrência de outras formas de consumo de informação, especialmente as digitais. A leitura exige tempo, concentração e continuidade, elementos que nem sempre encontram espaço no cotidiano contemporâneo. Por isso, ela precisa ser intencionalmente cultivada, por meio da repetição e da inserção na rotina (Fregonez, 2002).
É nesse ponto que as metas de leitura ganham relevância. Estabelecer objetivos, como ler um número específico de páginas por dia ou de livros por mês, pode funcionar como estratégia e consolidar o hábito. Mais do que alcançar números, trata-se de construir uma relação constante com o texto. Por outro lado, metas rígidas ou excessivamente quantitativas podem gerar frustração e afastamento. O desafio está em equilibrar disciplina e prazer, reconhecendo que a leitura também é um espaço de fruição e descoberta, ou seja, criar metas possíveis e alinhadas aos interesses do leitor tende a ser mais eficaz do que impor padrões idealizados. Nesse sentido, algumas estratégias práticas podem ajudar, como:
- desligar o celular ou silenciar as notificações durante a leitura;
- procurar um ambiente confortável e com menos distrações;
- fazer pequenas pausas ao longo da leitura para manter a concentração;
- não se prender a leituras que não despertaram tanto interesse e não ter receio de abandonar um livro que não faz sentido para você naquele momento;
- diversificar os tipos de leitura – isto é, explorar diferentes gêneros e formatos;
- definir momentos específicos do dia para a leitura.
Dessa forma, pensar em hábitos e metas de leitura é refletir sobre o lugar da leitura em nossas vidas. Em meio a tantas tarefas a serem feitas, reservar tempo para ler é também uma forma de desacelerar, aprofundar o pensamento e ampliar horizontes. Por fim, é preciso sempre respeitar o seu próprio ritmo. Não transforme a leitura em obrigação!
Referências
FREGONEZI, Durvali Emilio. A formação do leitor - Objetivos e estratégias de leitura. Revista de Letras, Fortaleza, vol. 1/2, n. 24, jan/dez. 2002. Disponível em: https://periodicos.ufc.br/revletras/article/view/2215/1683. Acesso em: 17 abr. 2026.
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL (PUCRS). Hábito de leitura estimula o cérebro e promove benefícios para a saúde mental. PUCRS, Porto Alegre, [s. d.]. Disponível em: https://portal.pucrs.br/noticias/saude/habito-de-leitura/. Acesso em: 17 abr. 2026.
SINDICATO DOS DOCENTES DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS DO CEARÁ (ADUFC). LEITURA – Pesquisa aponta que números de leitores/as no Brasil diminuiu. ADUFC, Fortaleza, 24 jan. 2025. Disponível em: https://www.adufc.org.br/2025/01/24/leitura-pesquisa-aponta-que-numeros-de-leitores-as-no-brasil-diminuiu/. Acesso em: 17 abr. 2026.
*Laura Costa Machado é estagiária da Editora UEMG e estudante de licenciatura em Letras Português-Francês pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).


