Por Abraão Filipe Oliveira* e Caroliny Procopio Lima**

Dirigido por Ryan Coogler e lançado em 2025, o filme Sinners (traduzido como Pecadores, no Brasil) recebeu 7 indicações ao Globo de Ouro 2026 – sendo vencedor na categoria de “Melhor Realização Cinematográfica e de Bilheteria” – e 16 indicações nas categorias do Oscar deste ano – tornando-se o filme mais indicado de todos os tempos na agremiação.
O longa-metragem se passa no Mississippi, estado no sul dos Estados Unidos (EUA), dos anos 1930, e retrata a jornada de dois irmãos gêmeos, Smoke e Stack (em português, Fumaça e Fuligem, ambos interpretados por Michael B. Jordan), tentando reconstruir a vida após retornarem à cidade natal. Neste espaço, os irmãos buscam inaugurar um bar/clube de música planejado para servir como refúgio para o blues, oferecendo um ambiente de recreação e libertação para a comunidade negra local. Com apresentações do primo dos protagonistas, um jovem tocador de violão chamado Sammie, e de outros artistas da região, o clube seria um ponto de resistência ao contexto da segregação e violência da época. Ao tentar recomeçar deixando para trás um passado conturbado e seus traumas pessoais, eles se deparam com uma presença assustadora sobrenatural que passa a assombrar a comunidade, revelando dilemas antigos ligados à violência, à espiritualidade e, sobretudo, às tensões históricas da região, decorrentes da invasão e dominação colonial. O território é marcado pelo extermínio dos povos originários e também pelas
políticas de segregação da época por parte da supremacia branca, durante a era Jim Crow.1
Ou seja, à medida que transcorrem os eventos no filme – que mistura um pouco de suspense/thriller sobrenatural, drama e ação –, fica exposto como as questões pessoais dos dois protagonistas, as suas famílias e as demais personagens estão atravessadas por uma ferida coletiva das comunidades afro-americanas, naquele local que é justamente o berço de nascimento do blues, em meio aos regimes de trabalho desumano nas plantações de algodão do sul dos Estados Unidos e entrelaçado pelos negro spirituals.2
Na música “Fio da navalha”, uma das últimas faixas do álbum Raio X Brasil (1993) do Racionais MC's, os integrantes do grupo afirmam: “A música negra é como uma grande árvore, com vários galhos e tal / O rap é um, o reggae é outro, o samba também / Agora vamos mostrar mais um deles então: / Racionais MC's, fio da navalha”. Ao fundo, após a fala do grupo, vai subindo a sonoridade de uma gaita, e Mano Brown diz: “E aí, Mano Artur da Gaita, chega mais, quebra tudo meu compadre”. A sonoridade desse instrumento é muito próxima do ritmo do blues, retratado no filme Sinners. Aqui, ainda, é impossível não lembrar dos versos de Baco Exu do Blues (Bluesman, 2018): “Tudo que quando era preto era do demônio / E depois virou branco e foi aceito, eu vou chamar de blues”.
Falar do surgimento do blues nos Estados Unidos e dialogar com o que dizem as letras dos Racionais e de Baco Exu do Blues nos convida a pensar nas expressões artístico-culturais que se desenvolveram no Brasil num período marcado por uma segregação que, diferentemente dos EUA, dava-se de maneira imiscuída no cotidiano, repleta de silêncios, tergiversações, ditos e não ditos, mas que, conforme debateu Sueli Carneiro (2023), estrutura um dispositivo social que distribui privilégios para pessoas brancas e formas de apagamento (sejam elas físicas ou simbólicas) para pessoas negras e indígenas.
As formas de apagamento, no contexto brasileiro, dão-se de múltiplas maneiras. Como aponta Jonatha Maximiniano do Carmo (2025, p. 21), em um dos capítulos do livro O que isso tem a ver com música? Três estudos sobre racismo, colonialidade e branquitude, organizado por Eduardo Pires Rosse e publicado pela Editora UEMG: “o então vigente projeto de incentivo à imigração branca europeia engendrava em parte da elite e intelectualidade uma esperança de evolução civilizacional e cultural e [...] esse projeto também revelava um desejo de embranquecimento racial – que se estendia ao ideal moderno de uma música, arte e cultura ‘genuinamente’ brasileiras”.
Conforme discute o pesquisador, essas “violências simbólicas herdadas e atualizadas em narrativas” reforçam um discurso que “hierarquiza os mais diversos tipos de sonoridades ‘musicais’” (Carmo, 2025, p. 23), marcando que existem formas culturais que carregam saberes e tradições que são invisibilizados, considerados inferiores e até demonizados. Inclusive, esse aspecto da espiritualidade é muito importante de ser sinalizado pois, tanto no contexto dos EUA quanto no do Brasil, o discurso religioso – mais especificamente uma leitura eurocristã fundamentalista do texto bíblico – foi utilizado como ferramenta colonial para estigmatizar e criminalizar as formas de expressão das pessoas negras (Reis; Teixeira, 2021).
No final do século XIX e início do século XX, no mesmo contexto em que se passa o filme estadunidense, o Brasil estava em uma transição: era o início de uma República após a “Abolição da Escravatura” em 1888 – evento que marca a liberação “no papel” das populações africanas escravizadas, mas que, na prática, representou a omissão do Estado brasileiro em relação à dignidade das pessoas negras, pelo abandono da população a condições subumanas (Carneiro, 2023).
Nesse cenário, a promessa formal de liberdade não se converteu em políticas estruturantes de acesso à terra, educação, trabalho digno ou participação política. Ao contrário, consolidou-se um projeto de nação que, ao mesmo tempo em que celebrava a mestiçagem como mito fundador, operava mecanismos sofisticados de exclusão racial (Carmo, 2025). A marginalização socioeconômica da população negra, combinada com o ideal de embranquecimento cultural e demográfico, produziu efeitos duradouros no campo simbólico – inclusive na legitimação (ou deslegitimação) de determinadas matrizes musicais (Carmo, 2025).
No entanto, como aponta Carneiro (2023), é impossível falar desse processo sem mencionar as formas de resistência que também aparecem nesse circuito. Se, por um lado, o Estado brasileiro se omitiu na formulação de políticas efetivas de inclusão social, por outro, as populações negras forjam, nas margens e nas brechas do sistema, territórios de criação, espiritualidade, memória e sobrevivência. Foi nesse contexto que práticas musicais como o samba, o choro e, posteriormente, diversas vertentes da música popular urbana (como o funk e o rap) se consolidaram não apenas como entretenimento, mas como arquivos vivos de experiências coletivas, dores e insurgências.
No livro Cenários musicais em Triste fim de Policarpo Quaresma: um estudo sobre a produção musical no Rio de Janeiro do final do século XIX, outra obra do catálogo da Editora UEMG, o pesquisador Robert Moura faz uma contextualização sócio-histórica da produção do autor carioca Lima Barreto (1881-1922). A partir da análise das ambiências musicais presentes no romance Triste fim de Policarpo Quaresma e de uma ampla pesquisa documental, Moura (2024) explora as razões pelas quais diversos gêneros em voga na cidade do Rio de Janeiro eram ou não valorizados pela sociedade da época. A modinha, o lundu, o maxixe e o choro, por exemplo, são alguns desses gêneros menos valorizados que, inclusive, vão, posteriormente, dar o “ponta pé” para o surgimento do samba (Tatit, 2004).
É nesse ponto que o diálogo entre Sinners e o contexto brasileiro se torna produtivo. É possível perceber como os elementos artístico-culturais são capazes não só de retratar as tensões raciais que marcam as formações sociais de países como o Brasil e os EUA, mas também de carregar o poder da sonoridade, da criação musical, enquanto uma instância simbólica de disputa por memória, reconhecimento, reestruturação comunitária e luta por liberdade. Uma ferramenta de re-existência que traz, em si, a potência de não sucumbir diante da opressão.
Conforme apresenta uma das cenas mais fortes do filme, o processo de se reinventar e se refazer presente nas diferentes culturas humanas passa pela ritualidade, pela dança, pela transmissão narrativa. E marcar essa dimensão comunica fortemente que, por meio da música, é possível transcender a existência humana, tocar o invisível, ainda que diante da brutalidade da violência racial.
Mais do que um thriller, portanto, o filme se projeta como reflexão sobre a memória, a colonialidade e a cultura ancestral. Ele evidencia que as expressões musicais negras – seja o blues no Mississippi, seja o rap dos Racionais MC’s e do Baco Exu do Blues – constituem arquivos vivos de resistência. Isso porque arte é, antes de tudo, política, e, muitas vezes, é pela música que a transformação começa.
O catálogo da Editora UEMG está repleto de obras que debatem o campo musical sob diversas perspectivas – desde reflexões teóricas, discussão de elementos técnicos até análises sobre os atravessamentos sociais. Confira agora mesmo: editora.uemg.br/catalogo.
1. Era Jim Crow é como ficou conhecida a época em que havia um sistema de segregação racial legalizado no sul dos Estados Unidos da América, entre 1877 e 1964, após a Guerra Civil Americana.
2. Negro spirituals faz referência a um gênero musical interpretado inicialmente por pessoas escravizadas nos Estados Unidos com canções que faziam uso de movimentos rítmicos do corpo e diziam de fé e liberdade, mesclando elementos do cristianismo com tradições musicais africanas para atravessar as duras jornadas nas plantações de algodão, no sul do país.
Referências
BLUESMAN. [Compositor e intérprete]: Baco Exu do Blues. In: BLUESMAN. Baco Exu du Blues. São Paulo: 999, 2018. 1 CD (30 min).
CARMO, Jonatha Maximiniano do. Separar ou não o autor da obra? – racialização na História da música brasileira (1926) de Renato Almeida. In: ROSSE, Eduardo Pires. O que isso tem a ver com música? Três estudos sobre racismo, colonialidade e branquitude. Belo Horizonte: Editora UEMG, 2025.
CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. São Paulo: Editora Schwarcz-Companhia das Letras, 2023.
FIO da navalha. [Compositor e intérprete]: Racionais MC’s. In: RAIO X BRASIL. Racionais MC’s. São Paulo: Zimbabwe Records, 1993. 1 CD (1h13min).
MOURA, Robert. Cenários Musicais em Triste Fim de Policarpo Quaresma: um estudo sobre a produção musical no Rio de Janeiro do final do século XIX. Belo Horizonte: Editora UEMG, 2024.
REIS, Lívia; TEIXEIRA, Jacqueline Moraes. Religiões e Raça. Religião & Sociedade, v. 41, n. 3, p. 11-23, 2021.
ROSSE, Eduardo Pires. O que isso tem a ver com música? Três estudos sobre racismo, colonialidade e branquitude. Belo Horizonte: Editora UEMG, 2025.
TATIT, Luiz. O século da canção. Cotia: Ateliê Editorial, 2004.
*Abraão Filipe Oliveira é bacharel em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente, é bolsista Fapemig, atuando como comunicólogo na equipe da EdUEMG.
**Caroliny Procopio Lima é estudante de Letras, com dupla habilitação em Português e Francês, na Universidade Federal de Minas Gerais e atualmente é estagiária de revisão na EdUEMG.


