Por Abraão Filipe Oliveira*

Muitas pessoas podem achar que os artefatos são simples elementos que tocamos com as mãos. Uma bicicleta, um porta-retrato, uma mesa, uma bola, um chapéu, e por aí vai… Contudo, algumas discussões acadêmicas nos convidam a pensar que as materialidades guardam não só o esforço físico de quem as construiu, mas também vestígios das relações históricas e sociais vinculadas à cultura da qual tais objetos são frutos.
Essa perspectiva é partilhada no último lançamento da Editora UEMG, Design e cultura material: um olhar sobre os objetos do cotidiano, com organização de Adriana Nely Dornas Moura, Luiz Henrique Ozanan e Marcelina das Graças de Almeida. Os textos reunidos na coletânea apontam que, a partir dos artefatos do dia a dia, é possível pensar – e repensar – sobre as complexas teias que nos conectam enquanto cultura humana.
Tal como afirma Marcelina das Graças de Almeida no prefácio da obra, “O design e a cultura material desempenham um papel relevante na construção da identidade de uma sociedade, uma vez que refletem suas crenças, valores, tradições e modos de vida. Por meio do design, é possível expressar a identidade cultural de um povo, preservar tradições e estimular a criatividade e a inovação” (Almeida, 2026, p. 6).
Vamos tomar um exemplo aparentemente “banal”: os livros. Antes de 1500, o livro não era um objeto de fetichização como na atualidade, conforme discutem Lucien Febvre e Henri-Jean Martin (2017). Porém, nos cinco séculos posteriores, no contexto das sociedades ocidentais, o cenário se alterou profundamente com o surgimento da imprensa. O livro passou a ganhar novo status simbólico, político e mercantil – até chegar nos dias de hoje, ganhando novas materialidades nos mais diversos formatos e suportes, inclusive digitais. Toda essa dinâmica é desdobramento de uma transformação, sim, de ordem “técnica”, mas também de processos históricos, sociais, filosóficos e culturais que nos fazem ter a relação que temos hoje com tal materialidade.
Como os capítulos do lançamento são frutos de estudos produzidos no Programa de Pós-Graduação em Design da Universidade do Estado de Minas Gerais (PPGD/UEMG), o design é tomado justamente como um fio condutor capaz de ajudar a observar “o papel desses artefatos no mundo contemporâneo” e “sua atuação na produção de sentidos na sociedade” (Moura; Ozanan, 2026, p. 205).
Em diálogo com autores do campo do design, das ciências sociais e da cultura material – como Adrian Forty e Daniel Miller –, os textos se propõem a perceber como “os artefatos são usados na construção de narrativas [...] na vida das pessoas”, conforme afirmam Adriana Nely Dornas Moura e Luiz Henrique Ozanan (2026, p. 205) no posfácio. Assim, é destacado como o trabalho do design precisa ter um olhar mais amplo para a usabilidade e para a aplicação tecnológica no processo de concepção, mas também para o bem-estar social.
Na primeira parte da obra, as autoras e os autores do livro realizam esse movimento analítico com diversos artefatos: absorventes íntimos, bicicletas, jogos digitais, máquinas de costura, algemas e smartphones se tornam pontos centrais das discussões, em que vão sendo descortinados diversas tramas históricas, teóricas e sociais que permitem compreender seus usos e significados ao longo do tempo.
Além disso, a segunda parte traz discussões sobre conceitos fundamentais do campo do design e seus vínculos com a cultura material, pautando questões contemporâneas como: as possíveis relações entre intervenções artísticas, narrativas ficcionais e desinformação; a teoria do design sistêmico como uma forma de enfrentamento ao consumo capitalista; e uma reflexão teórica sobre o etnodesign a partir das culturas indígenas no território brasileiro.
Para ilustrar essa discussão, por exemplo, no que diz respeito ao celular, Karine Drumond e Paloma Diniz afirmam no capítulo “Smartphones: o uso da tecnologia móvel digital na vida cotidiana sob a perspectiva da cultura material”: “A análise histórica do desenvolvimento da telecomunicação permite também observar a rápida evolução da tecnologia do celular, que foi se transformando, ao longo dos anos, em artefato multifuncional capaz de substituir diversos outros objetos” (Drumond; Diniz, 2026, p. 117-118).
Ainda sobre o uso do celular, Daniel de Souza Gamarano e Thaís Falabella Ricaldoni (2026), em determinado momento do texto “Soluções sistêmicas para problemas sistêmicos: o design sistêmico e o sistema capitalista de consumo”, chamam atenção para como esse aparelho tem sido utilizado de maneira ampla e intensa pelas pessoas e como o descarte acelerado influencia toda uma cadeia produtiva, gerando impactos ambientais.
Portanto, os objetos guardam os modos como são usados e apropriados nas relações sociais, revelando múltiplas dimensões que atravessam os vínculos identitários e o papel que ocupam em nossas vidas cotidianas. Logo, se “o design e a cultura material são ingredientes que influenciam diretamente a forma como interagimos com o mundo ao nosso redor” (Almeida, 2026, p. 7), refletindo nossa identidade, valores e preocupações como sociedade, esta coletânea pode ser um interessante ponto de partida para repensarmos a maneira com a qual nos relacionamos com os artefatos produzidos pela humanidade, todos os dias.
Leia já a obra: está imperdível! O livro se encontra disponível gratuitamente no catálogo da Editora UEMG e pode ser baixado pelo link: http://bit.ly/design-cultura.
Referências
ALMEIDA, Marcelina das Graças de. Prefácio. In: MOURA, Adriana Nely Dornas; OZANAN, Luiz Henrique; ALMEIDA, Marcelina das Graças de (org.). Design e cultura material: um olhar sobre os objetos do cotidiano. Belo Horizonte: EdUEMG, 2026.
DRUMOND, Karine; DINIZ, Paloma Diniz. Smartphones: o uso da tecnologia móvel digital na vida cotidiana sob a perspectiva da cultura material. In: MOURA, Adriana Nely Dornas; OZANAN, Luiz Henrique; ALMEIDA, Marcelina das Graças de (org.). Design e cultura material: um olhar sobre os objetos do cotidiano. Belo Horizonte: EdUEMG, 2026.
FEBVRE, Lucien; MARTIN, Henri Jean. O aparecimento do livro. São Paulo: Edusp, 2017.
GAMARANO, Daniel de Souza; RICALDONI, Thaís Falabella. Soluções sistêmicas para problemas sistêmicos: o design sistêmico e o sistema capitalista de consumo. In: MOURA, Adriana Nely Dornas; OZANAN, Luiz Henrique; ALMEIDA, Marcelina das Graças de (org.). Design e cultura material: um olhar sobre os objetos do cotidiano. Belo Horizonte: EdUEMG, 2026.
MOURA, Adriana Nely Dornas; OZANAN, Luiz Henrique. Posfácio. In: MOURA, Adriana Nely Dornas; OZANAN, Luiz Henrique; ALMEIDA, Marcelina das Graças de (org.). Design e cultura material: um olhar sobre os objetos do cotidiano. Belo Horizonte: EdUEMG, 2026.
MOURA, Adriana Nely Dornas; OZANAN, Luiz Henrique; ALMEIDA, Marcelina das Graças de (org.). Design e cultura material: um olhar sobre os objetos do cotidiano. Belo Horizonte: EdUEMG, 2026.
*Abraão Filipe Oliveira é bacharel em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente, é bolsista Fapemig, atuando como comunicólogo na equipe da EdUEMG.


