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Selos, séries, coleções… Tem diferença? Faz diferença?

Por Antônio de Andrade*

Selos, séries, coleções... Tem diferença? Faz diferença?

 

“Selo, “série” e “coleção” são termos corriqueiros no universo editorial. Porém, as diferenças entre eles nem sempre são evidentes, até mesmo para quem trabalha diretamente com livros. O que não é difícil perceber é que essas classificações têm um porquê e são de grande importância para as editoras.

Certos selos, séries e coleções conquistam um reconhecimento tão grande que não raro conhecemos os livros que os compõem sem necessariamente saber a qual editora pertencem. 

Então, para compreender melhor por que essas classificações existem e quais as diferenças entre elas, podemos, a princípio, pensar de um modo um pouco mais detido sobre a natureza do trabalho editorial. 

Primeiramente, ao publicar diferentes obras, as editoras vão formando os seus catálogos, que podem abarcar diversos gêneros textuais. E no intuito de organizar, classificar e dar maior unidade aos títulos que compõem esses catálogos, comumente as editoras lançam mão dessas formas de organização. Assim, a partir do século XIX, com o aumento exponencial da produção editorial, as editoras passaram a criar mais e mais selos, séries e coleções (Utsch, 2015). 

Mas os benefícios desse recurso vão além da simples organização dos títulos. Unir um conjunto de livros sob o “guarda-chuva” de um selo, série ou coleção é também uma forma de fortalecer identidades e a sensação de continuidade entre os títulos, além de promover o reconhecimento do trabalho editorial em torno da publicação de obras que partilham pontos em comum. Desse modo, realiza-se um trabalho estratégico de aproximação com os leitores, que passam a constatar na coleção (ou no selo, ou na série) uma referência de qualidade, confiabilidade ou especialidade em um assunto. 

Observando ainda esse caráter estratégico, além dos fatores de ordem afetiva – como o reconhecimento da excelência dos autores e títulos – fatores de ordem econômica – como a racionalização e padronização do processo de produção por meio da adoção de um mesmo projeto gráfico para diferentes obras – fazem com que essas formas de organização sejam altamente vantajosas para o desenvolvimento das práticas editoriais. 

Como afirmam Marta Maria Chagas de Carvalho e Maria Rita de Almeida Toledo (2004, [n. p.]): “a edição de coleções é sempre produto de uma dupla inserção em um lugar de poder: de um lado, a de um interesse econômico de uma casa de edição, marcada por uma lógica que visa à ampliação do mercado editorial; de outro, a de uma política cultural que deposita no livro uma missão, variável segundo os objetivos que lhe são atribuídos por seus promotores em situações históricas específicas”. 

Por isso, certos selos, séries e coleções se tornam verdadeiros símbolos de distinção, que atestam o sucesso das editoras e, em alguns casos, podem influenciar e ensejar importantes transformações no mercado editorial. Nesse sentido, como exemplo, podemos pensar no caso da Penguin Books. 

Allen Lane, criador da Penguin Books, atento às mudanças no comportamento social e no mercado de consumo na década de 1920, percebeu que surgia uma oportunidade de inovação: livros de baixo custo que atendessem ao público emergente de leitores, como alternativa aos livros de capa dura e edições luxuosas que até então dominavam o mercado. Assim, em 1935 a Penguin Books era oficialmente criada, propondo-se a atender o novo público de leitores que se desenvolvia e revolucionando o mundo editorial com seus livros de bolso e o sucesso das suas séries e coleções (Brand, 2025; Penguin-Companhia, 2025). 

Um dos maiores “cases de sucesso” da Penguin é a série Orange Classics, dedicada à publicação de edições de baixo custo de livros considerados “clássicos” da literatura.

 

Capa do livro Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, publicado pelo Grupo Cia. das Letras.

Capa do livro Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, publicado pelo Grupo Cia. das Letras.

 

Desde 2010, o Grupo Cia. das Letras publica as coleções e séries da Penguin no Brasil, e se você gosta de literatura provavelmente já viu por aí exemplares desses livros. 

Assim, a história da Penguin Books ilustra bem como uma marca pode construir uma identidade forte e obter reconhecimento a partir desse tipo de organização editorial.

Porém, dado que no próprio catálogo da Cia. das Letras não fica muito nítido o que diferencia essas classificações, é possível perceber como a linha que distingue selos, séries e coleções pode ser tênue. 

Portanto, é evidente que esse tipo de organização de catálogos editoriais é relevante mas que, concomitantemente, há pouca uniformidade na forma como editoras trabalham essa questão.

Desse modo, aqui é importante ressaltar que, na prática, não se trata de conceitos rigorosamente delimitados. É comum que o conceito de “série” para uma editora se adeque melhor como “coleção” para outra. 

Então, como podemos diferenciar essas três categorias? 

Em geral, pesquisadores da área costumam distinguir selos, séries e coleções a partir dos critérios detalhados a seguir. 

Primeiramente, os selos seriam como “submarcas” de uma editora que podem organizar o catálogo a partir de eixos como temática abordada ou gênero textual gênero predominante nas obras, sem necessariamente enquadrá-las em um mesmo projeto gráfico ou objetivar um mesmo público-alvo. Há, por exemplo, editoras que criam selos exclusivamente dedicados à poesia, aos livros infanto-juvenis, às histórias em quadrinhos (por exemplo o selo Quadrinhos na Cia., da Companhia das Letras)... Outro bom exemplo é o da editora Darkside (focada em livros que trabalham com o gênero “terror”), que organiza o seu catálogo a partir de diferentes selos, como Medo Clássico, Cinebook Club, Crime Scene, Graphic Novel etc. 

Desse modo, a distinção dos selos para as outras classificações é mais demarcada, e dentro de um mesmo selo podem ser criadas coleções e séries. 

As coleções podem ser definidas como grupos de publicações distintas unidas por um nome comum, mas cada obra com seu próprio título e responsável (autores e/ou organizadores). Os livros podem ou não receber numeração sequencial e seguir regras editoriais mais rígidas relacionadas ao formato, projeto gráfico, capa e ilustrações. Normalmente, coleções organizam os livros em torno de temas homogêneos, definidos pelo editor ou diretor da coleção (Farica; Pericão, 2008). Além disso, o mais comum é que as coleções não tenham uma pré-determinação de quantidade de títulos a serem publicados; isto é, teoricamente, não há pretensão de finitude de obras em uma coleção. 

No universo acadêmico, por exemplo, a coleção Debates, da editora Perspectiva, é amplamente conhecida como uma referência de excelência, publicando obras de pesquisadores e estudiosos como Umberto Eco, Augusto de Campos, Antonio Candido etc.

 

Capas de livros da coleção Debates, publicada pela editora Perspectiva.

Capas de livros da coleção Debates, publicada pela editora Perspectiva.

 

As séries trazem algumas diferenças em relação às coleções, mas que podem ser sutis, devido à amplitude de definições e práticas que encontramos no mercado editorial (Farica; Pericão, 2008). Teoricamente, as séries já preveem, de início, a finitude dos títulos a serem publicados. Além disso, diferentemente das coleções, que podem ou não organizar os títulos de acordo com o tema ou gênero textual, nas séries é mais comum que essa concepção de ligação entre as obras seja mais direta e rígida, incluindo o compartilhamento de projeto gráfico. Nas séries, pode haver uma relação de dependência e continuidade entre os volumes publicados que habitualmente não se aplica às coleções. Outra consideração que pode ser útil é a compreensão do conceito a partir de séries literárias mundialmente conhecidas, como “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust, ou “Harry Potter”, de J. K. Rowling. Podemos pensar, ainda, nas séries de livros didáticos, em que se supõe uma ordem de leitura sequencial para compreensão integral do conteúdo. Nesses casos, fica fácil perceber a finitude da série, pré-determinada por quem a cria. 

Assim, é possível dizer que, de um lado, há o que poderíamos chamar de séries narrativas (ou literárias) – compostas de obras que compartilham elementos como enredo e personagens – e, de outro, as séries editoriais – que se assemelham às coleções, mas que podem contar com características mais rígidas, por exemplo em relação às temáticas contempladas e à finitude de títulos a serem publicados. 

Outro diferencial de caráter técnico-prático interessante é que coleções, por não terem pré-determinada a sua finitude, podem receber um ISSN geral e ISBNs para cada volume publicado, enquanto não é possível atribuir um ISSN a séries, apenas ISBNs para os livros publicados (Les collections éditoriales de livres, [s. d.]).1 

A partir dessas considerações, já é possível estabelecer alguns limites e características mais determinantes para minimamente diferenciar essas categorias. Contudo, vale lembrar mais uma vez que não se trata de regras, mas de convenções que podem mudar de editora para editora e que são instrumentalizadas conforme é necessário ou conveniente. 

 

O contexto da Editora UEMG

Na história da Editora UEMG, já publicamos diferentes séries e coleções; algumas mais antigas, outras mais recentes. A série Diálogos com o Som, por exemplo, iniciada em 2014, foi idealizada para produção de obras que têm o objetivo de serem depositárias e difusoras dos saberes que constituem o universo da música e suas relações. E nos anos mais recentes foi criada a coleção Desafios para o século XXI, que trabalha três eixos de interesse para estabelecer conexões mais estreitas entre as obras – Biodiversidade, sustentabilidade e mudanças climáticas; Tecnologias digitais e sociedade; e Democracia, intolerância e violência.

 

Capa do livro Segurança pública e cidadania: desafios contemporâneos, da coleção Desafios para o século XXI, publicada pela Editora UEMG. Capa do livro Diferentes olhares sobre a biologia da conservação, da coleção Desafios para o século XXI, publicada pela Editora UEMG. Capa do livro Sustentabilidade e ensino de moda: somos parte do problema ou da solução?, da coleção Desafios para o século XXI, publicada pela Editora UEMG.


Capas de livros
 da coleção Desafios para o século XXI, publicada pela Editora UEMG.

 

Atualmente, a EdUEMG está trabalhando o lançamento de mais três coleções: Artistas de Minas e Música de concerto em Minas – idealizadas por meio do edital 01/2024; e Conceitos essenciais – idealizada por meio do edital 02/2024.

As coleções Artistas de Minas e Música de concerto em Minas buscam apresentar uma amostragem da obra de artistas naturais ou vivendo em Minas Gerais, sem delimitação da linguagem ou técnica artística utilizada, enquanto a coleção Conceitos essenciais tem como objetivo publicar obras breves, leves e instrutivas, destinadas a professores(as), discentes e leitores(as) que desejam iniciar sua formação em uma área específica.

Então, fique atento(a) às nossas redes sociais para não perder o que estamos preparando para essas coleções e aproveite para acompanhar a nossa série de posts que apresentam as séries e coleções que compõem o nosso catálogo!


1. A sigla ISSN, de International Standard Serial Number (ou, em tradução livre, Número Padrão Internacional de Publicação Seriada), é o número destinado a publicações contínuas, sem previsão de encerramento, como revistas, jornais, anais, coleções editoriais etc., identificando o título comum compartilhado por todas as obras que integram essa organização, independentemente do número ou edição específica. Já o ISBN (International Standard Book Number – ou Número Padrão Internacional de Livro) identifica obras monográficas ou volumes individuais, permitindo a identificação única de cada edição de uma obra. As séries, portanto, por terem finitude editorial definida, recebem apenas o ISBN individual para cada volume publicado.

 

Referências

BRAND, Laura. A história dos livros de bolso [...]. Instagram, 31 dez. 2025. Disponível em: https://www.instagram.com/reel/DS7T3KgAJMx/?igsh=MWFsd3Jmc3Z6aWl1aQ%3D%3D. Acesso em: 21 jan. 2026.

CARVALHO, Marta Maria Chagas de; TOLEDO, Maria Rita de Almeida. A coleção como estratégia editorial de difusão de modelos pedagógicos: o caso da biblioteca da educação organizada por Lourenço Filho. 2004, Anais [...] Curitiba: PUC-PR, 2004. p. 1-13.

FARIA, Maria Isabel; PERICÃO, Maria da Graça. Dicionário do livro: da escrita ao livro eletrônico. São Paulo: Edusp, 2008.

LES COLLECTIONS éditoriales de livres. Bibliothèque Nationale de France, Paris, [s. d.]. Disponível em: https://www.bnf.fr/fr/les-collections-editoriales-de-livres. Acesso em: 28 jan. 2026.

PENGUIN-COMPANHIA. Como tudo começou [...]. Instagram, 01 set. 2025. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DOEu9oxjLR8/?img_index=7. Acesso em: 21 jan. 2026.

USTCH, Ana. O livro como coleção: bibliofilia, edição, encadernação e literatura na França do século XIX. Revista Brasileira de História da Mídia, v. 4, n. 2, jul./dez. 2025.

 

*Antônio de Andrade é revisor-chefe da Editora UEMG e idealizador da Livr_: Impressões, projeto de publicações independentes criado em 2021.

 

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