Por: Amanda Rabelo Chaves*

No mais novo lançamento da Editora UEMG, a coletânea A clínica psicanalítica com adolescentes na geopolítica pós-colonial, os(as) autores(as), em seus respectivos capítulos, abordam diferentes aspectos da adolescência em um mundo cada vez mais globalizado, atravessado por intensas transformações, contradições, vulnerabilidades e possibilidades. A psicanálise, nesse contexto, surge como uma ferramenta para compreender as experiências desse período da vida: não apenas como fase de transição, mas como um espaço simbólico de formação do sujeito, de enfrentamento de limites e de constituição do desejo.
Entre as análises presentes na coletânea, o terceiro capítulo se dedica a explorar o filme Cafarnaum, propondo uma leitura sobre a infância e a marginalidade. O longa conta a história de Zain, um garoto libanês de 12 anos que, em meio à pobreza extrema, assume a responsabilidade de cuidar de seus irmãos. Quando sua irmã mais nova é forçada a se casar com um homem mais velho, Zain se revolta e foge, em um gesto de subversão simbólica. A leitura psicanalítica evidencia, nesse ato, a ruptura entre o desamparo e a tentativa de reinscrever-se no campo do humano; uma infância que se rebela diante do abandono.
O cinema é, portanto, tomado como uma ferramenta de representação da sociedade, como um espelho que reflete as relações das pessoas entre si e a dinâmica perante o mundo em que está inserido. O teórico de cinema Bill Nichols nos explica que “mesmo a mais extravagante das ficções evidencia a cultura que a produziu e reproduz a aparência das pessoas que fazem parte dela” (Nichols, 2005, p. 26). Ou seja, o cinema funciona como um tipo de arte-denúncia, que procura revelar “tragédias e crueldades” a fim de “sensibilizar os espectadores e as espectadoras para as questões éticas que exigem transformações estruturais na sociedade” (Imbrizi; Bartsch; Binkowski, 2025, p. 81).
Mas não é preciso olhar para o Líbano para encontrar infâncias violadas. No filme brasileiro Anjos do Sol, dirigido por Rudi Lagemann, somos apresentados à história de Maria, uma menina de 12 anos vendida por sua família e levada para um prostíbulo, onde é vítima de exploração e violência sexual. A trajetória de Maria é o retrato de uma infância interrompida, capturada por uma lógica social que transforma corpos de jovens mulheres em objetos para o prazer sexual dos homens em seu entorno.
No caso de Maria, a autonomia sobre a sua vida é retirada das suas mãos, subvertida pelas relações patriarcais que estruturam a dominância masculina sobre mulheres, crianças e adolescentes. Nesse filme, assim como em Cafarnaum, vemos “inimigos violentos da infância, homens, em sua maioria, que estão prontos para fazer o ‘serviço sujo’ que colaboram com a lógica perversa do capitalismo como única forma de sobrevivência e que transformam as mulheres em objetos” (Imbrizi; Bartsch; Binkowski, 2025, p. 91). Dessa maneira, a violência da qual Maria é vítima acaba se tornando parte da sua constituição psíquica. Consequentemente, pensar sobre a maneira que Maria se constrói enquanto sujeito, enquanto um Eu perante um Outro, é inseparável da sua análise clínica.
Afinal, a condição de Maria, uma menina que é colocada no mundo da prostituição por conta da sua condição socioeconômica é, infelizmente, uma realidade ainda muito presente na atualidade brasileira, onde 77% das vítimas de tráfico humano são mulheres que foram sequestradas para a exploração sexual (Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, 2021). Dessa maneira, é imprescindível que a psicanálise inclua na sua prática “as relações econômicas, imaginárias, simbólicas, políticas, pulsionais e raciais vividas no Brasil [...]” (Broide; Rosa, 2025, p. 110).
Ao confrontar o espectador com essa realidade, Anjos do Sol não apenas denuncia, mas também convida à reflexão sobre a formação do sujeito em meio à violência e à exclusão. Aqui, as perguntas que guiam a coletânea fundamentam também nosso olhar sobre o filme: como os adolescentes respondem, inconsciente e politicamente, ao discurso de sua época? Como o mundo adulto intervém aí? Ou, mais importante, como pensar a práxis psicanalítica a partir de considerações pós-coloniais?
Assim, tanto Cafarnaum quanto Anjos do Sol nos colocam diante da mesma questão: a de infâncias e adolescências que buscam uma forma de existir em meio a um mundo que cada vez mais se afunda em desigualdades sociais e econômicas. Por isso, trazer um recorte que entenda o adolescente enquanto sujeito que “se produz como resposta ao que recebe do Outro” (Katz, 2025, p. 8), é fundamental para uma prática psicanalítica acolhedora e preparada para os desafios que um mundo globalizado e interconectado impõe.
Então, se você quer saber mais sobre como o cinema pode funcionar como uma ferramenta de arte-denúncia e, além disso, aproveitar para ter contato com diversos trabalhos que indicam possibilidades e caminhos para que a clínica psicanalítica se abra a novos olhares sobre a adolescência, recomendamos fortemente a leitura de A clínica psicanalítica com adolescentes na geopolítica pós-colonial, organizado por Andréa Máris Campos Guerra, acesse o livro em: bit.ly/a-clinica-psicanalitica.
Referências
ANJOS DO SOL. Direção: Rudi Lagemann. Produção: Rudi Lagemann. Brasil: Downtown Filmes, 2006. 1 filme (92 min).
BROIDE, Emília Estivalet; ROSA, Miriam Debieux. Errância, lampejo, enlace. In: GUERRA, Andréa Máris Campos (org.). A clínica psicanalítica com adolescentes na geopolítica pós-colonial. Belo Horizonte: EdUEMG, 2025.
CAFARNAUM. Direção: Nadine Labarki. Produção: Michel Merkt e Khaled Mouzanar. Líbano: Mooz Films e associados, 2019. 1 filme (126 min).
IMBRIZI, Jaquelina; BARTSCH, Julia; BINKOWSKI, Gabriel Inticher. Sobre os deslocamentos do desejo no filme Cafarnaum. In: GUERRA, Andréa Máris Campos (org.). A clínica psicanalítica com adolescentes na geopolítica pós-colonial. Belo Horizonte: EdUEMG, 2025.
KATZ, Ilana. Prefácio. In: GUERRA, Andréa Máris Campos (org.). A clínica psicanalítica com adolescentes na geopolítica pós-colonial. Belo Horizonte: EdUEMG, 2025.
MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA. Crianças, adolescentes e mulheres são 75% das vítimas do tráfico de pessoas, apontam dados do Disque 100. Gov.br, [s. l.], 30 jul. 2021. Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2021/julho/criancas-adolescentes-e-mulheres-sao-75-das-vitimas-do-trafico-de-pessoas-apontam-dados-do-disque-100. Acesso em: 12 nov. 2025.
NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2005.
*Amanda Rabelo Chaves é formada em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e atualmente é estudante na Universidade Federal de Minas Gerais (FALE/UFMG), onde estuda Tradução Português-Inglês desde 2022. Atua como estagiária de revisão na EdUEMG.


